Cansei. Cansou de quê? De tudo. De tudo? Impossível. É, de tudo. De tudo o quê? De gente, de lutas… Ah, é difícil essa luta. De que luta você fala? Da luta pelas gentes. Essa é a mais difícil das lutas. A luta pelas gentes? Não, pelos sentimentos. Isso é possível? O quê? Lutar pelos sentimentos? Não. E por que luta? Não sei, necessidade. Necessidade de luta? Necessidade de sentimento.
sem título
Hoje não pretendo escrever besteiras cheias de infatilidade. Ou talvez seja exatamente isso que farei, não sei. Mas não escreverei qualquer coisa parecida com um conto, ou o que seja, essas coisas que acontecem todos os dias, às vezes até parecem sem importância, e acabam se transformando em estórias cheias de história.
Não sei, talvez eu quisesse mesmo conversar, mas aparentemente às pessoas não estão prontas para me ouvir, ou eu também não estou pronto para conversar com elas, onde meus pensamentos, devaneios e sentimentos não são compreendidos como tento passá-los. Não que a conversa seja vã, a conversa com eles todos é sempre de uma ajuda, alguma ajuda, até mesmo quando não ajuda, ajudando. Mas, em alguns momentos me vejo só, ouvindo músicas que me recordam tempos vividos, e outros tantos não vividos, com o coração gritando sem voz por espaço, por algo que ele tem a dizer e não diz, e quer dizer. Falar. É o que faço agora, falo, comigo mesmo, e com essas letras nesse fundo branco, que mesmo que não me responda, sei que de alguma forma me aceita. É o que pode fazer, me aceitar.
Ontem eu vi um pássaro. Parece trivial, mas teve uma força descomunal que chegou para escancarar meu ser e tudo aquilo que nele havia calado, deixando suas entranhas expostas e tudo aquilo que nele há de bom, e mesmo aquilo que eu ainda não conheço, mas que agora, de forma turva, começo a ver.
Era belo, tão belo que, quando me olhava, eu já não conseguia mais falar, ou ouvir, só ver. O seu andar, ou melhor, seu voar, era tão leve e sincronizado com toda a natureza que, tamanha harmonia, deveria a ele ser dado o nome de Natureza. Mas era pássaro, e voava. Sua risada era como ouvir Clair de Lune, com suas notas altas e baixas, mas sem perder a suavidade. Seu cheiro era doce, e ficou a me rodear por toda a noite, e acada suspiro ou respiração profunda que me tomasse, aquele perfume caminhava por minhas narinas e me fazia desejar voar. E voei, por alguns minutos, horas. Envolvidos pela música, e pela alegria, pude sentir o que era voar, e, olhar a lua, e ouvi-la falar sobre Lua, sobre ela, e sobre sua vida nômade.Ela, a rir de meus momentos engraçados, que eu contava sem intenções, mas que me alegravam ao vê-la sorrir ainda mais. Com meus atos, que talvez não fossem grandes, e realmente não eram, mas que faziam reluzir ainda mais aqueles olhos. E sua forma de agradecimento, ou de demonstração pura de afeto, vinha com tamanha sinceridade que me faziam não perder um segundo e me deixavam todos os sentidos apurados para vivê-los: abraços, seus braços, ou suas asas, me envolviam e tornavam meu ritmo cardíaco não mais rápido, mas em sintonia com o mar, com o vento, com as folhas que caiam das árvores, com a lua branca a nos observar.
Voei. Mas agora estou novamente aqui, não onde estava, estou aqui, nesta árvore, sentindo o vento soprar lento e me abraçar, enquanto penso naquele pássaro, e no quanto eu pude me sentir, ainda que momentaneamente livre, ao estar com ele.
E esse relato talvez não importe às pessoas que não leem esse blog. E nem pretendo que importe, porque o que acontece a mim, interessa a mim, e talvez só eu sinta tudo e muito mais do que tudo isso o que escrevi e descrevi quando a vi. E realmente foi mais, muito mais, porém, nessa obscuridade de palavras, posso conversar sobre isso. E foi belo. Era belo, o pássaro. Bela.
Yellow bird
Caminho pelas calçadas cinzas das avenidas embalsamadas pelo concreto. Observo rostos desconhecidos, espero surpreender-me com algo que ainda desconheço. Não sei o quê, mas quero a surpresa. Uma surpresa que possa disparar o coração, que possa fazer as mãos ficarem suadas e perdidas, colocadas no bolso da calça quando perderem completamente seu controle e sentido, que possa fazer esquecer, ainda que momentaneamente o que aflige, que os medos sejam afastados, num golpe súbito, pela surpresa inesperada.
Humano, essencialmente humano. Uma vida comum, qualquer, como outras tantas presentes nesse planeta que ainda desconhecemos. Entro no ônibus, e vejo a cidade passar mais rápido. Um novo ângulo. Agora vejo rostos cansados, marcados por suas histórias, vidas severinas como dizia João. A falta de esperança, o aguardo de um dia futuro melhor, a vida vivida sem gosto pelos cantos da metrópole – rotina.
Pela janela vejo robôs, ações calculadas, premeditadas. O afastamento das pessoas das outras pessoas, as barreiras invisíveis aos olhos, mas sentidas, que nos mantém afastados uns dos outros como um imã colado ao outro, estamos nos repulsando. Uma cidade sem sentimento, Alphaville brasileira. Tantos pensamentos, idéias sem nexo e talvez sem relevância, questões mortas, sigo o trajeto aguardando a surpresa que todos nós queremos ter num momento do dia, para que se possa pintar de amarelo o que se faz cinza. E o amarelo se faz: um pássaro belo, com vôo lento e delicado, vivo, alegre, dança pelos céus como se estivesse a apresentar-se num espetáculo. E voa.
Desço do ônibus no mesmo instante, não sei onde estou, mas aquele pássaro me puxa a seguí-lo como Alice seguia o coelho. Eu sentia a sensação que ela sentira ao avistar aquele coelho; qual sensação era? Não sei, mas sei que a minha era igual. E ele seguia voando, destino certo, enquanto eu corria por aquela avenida longa, não imagino onde chegaria, e não me preocupava em chegar. Corri, por um longo caminho, não vi mais rostos, não vi mais cinza, meu olhar e meu pensamento era fixo naquele pássaro amarelo, vivo, brilhante, uma peça de arte colocada pelas mãos do próprio Deus neste lugar, e eu não poderia mais desistir agora. Não caberia a mim tal decisão, e nem eu decidiria por parar. Eu não queria parar, estava agora indo em direção ao que não se sabe e não tinha medo, vergonha. Estava à salvo, onde quer que fosse, a partir daquele momento, com aquele pássaro.
Impávido, o pássaro entrou num imenso jardim que eu jamais antes vira. As cores estavam lá, as cores que a cidade deixou escorrer pelos ralos da tristeza estavam todas lá. Vida – poderia chamar assim. Uma ilha no concreto – e o pássaro pousou. Entrei por entre os portões que eram guardados por imensos anjos, e ele estava lá, com seus olhos negros como o universo, iluminados pelas luzes das estrelas jovens.
Caminhei até ele, e como se pudesse invadir o que chamamos de mente, ele me diz: Aprende a voar. Voa. E como se meu coração explodisse dentro do peito, de minhas entranhas emergiram um sentimento nunca antes sentido: Liberdade. Fechei os olhos e apenas senti, nesse momento não mais era necessário ver, a alma já estava vendo. Respirava o ar puro e leve daquele punhado do mundo onde os deuses vivem – e eu nunca estive lá, mas imagino que seja assim – e senti.
Uma claridade imensa tornou impossível enxergar, tudo tornou-se branco e eu já não via mais o pássaro amarelo, tão pouco as plantas, árvores, rosas. Via apenas luz, que me envolvia cada vez mais, por todos os lados, cantos, frestas, mas não me apavorei, não havia naquilo algo que me pusesse a sentir medo. O medo era para as coisas que eu já tinha vivido e não queria mais viver, não para aquele desconhecido belo. Tornei a fechar os olhos, a claridade agora incomodava meus olhos, eu não os conseguia manter abertos, e fechá-los não tornaria a situação mais estranha ou menos bela.
Com o passar do tempo, a luz foi distanciando, pude finalmente abrir os olhos e entender aquilo tudo, apesar de que nada daquilo poderia ser compreendido com exatidão, pelo menos não naquele momento, e talvez não em outros. Mas eu agora não me sentia eu, digo, não me sentia como antes, o que era antes. Tudo aquilo havia mudado algo em mim, e corria em minhas veias outro sangue, entrava por meus pulmões outros ares. Pulmões?
Toda aquela sensação nova e estranha me fez esquecer de algo fundamental, procurar o pássaro amarelo. Será que ainda estaria ali? E estava. No exato mesmo lugar, com sua expressão serena e alegre, a olhar para mim. Novamente, sua voz invadiu minha cabeça: Voa. E voei. Asas negras, voava sem que aquilo me fosse estranho. E estou voando agora. Observo o mundo do alto, e vejo a felicidade encontrando aos sem esperança em gotas de alegria nos momentos inesperados e não planejados. Vejo a vida girar o mundo, ou o mundo girar a vida, e vôo. Voamos. O belo pássaro amarelo me trouxe a vida novamente, à minha vida. Me trouxe a liberdade que eu antes nunca gozara. Me deixo levar pelo vento elíseo e sua alegria amarela, que me mostra a beleza do novo horizonte, onde o mar abraça o sol num carinho que avassala, para acolhê-lo até o próximo dia na hora de se levantar. Voamos, os dois, ao infinito, até onde nossas asas puderem nos levar.
- Senhor? Senhor?
- Sim, desculpe, descerei aqui, obrigado.
Desceu do ônibus e caminhou pela Avenida Paulista, em direção ao Conjunto Nacional.
Breve como a morte (ou seria a vida?)
Essa merda toda começou ontem. Começou e não deveria ter começado. Ou deveria, não sei, o que sei é que agora estou aqui, sentado, com um cigarro que não faz diferença, e a bebida que me não me faz esquecer porra nenhuma do que aconteceu.
E começou cedo, às 7 da manhã, quando fui trabalhar naquela loja ridícula. Preciso sair de lá, mas não consigo, um medo de merda de não conseguir outro emprego, como se esse medo fosse me dar um novo lugar para trabalhar, com um mínimo mais de decência. Por sinal, é esse medo que deixa essa população cinza, da cor da cidade, pequenos zumbis caminhando por entre ruas e bairros apáticos. Seus sangues já não correm desde que deixaram de ser crianças, quando perceberam que a vida era mais intensa do que poderiam suportar. Simplesmente morreram, antes de morrer. E eu estou morrendo junto.
Foram 10 horas naquele lugar, agüentando um gerente que acredita que o fato de ser gerente o coloca no topo da escala evolutiva, considera-se um além-homem. A crença de que é um ser culto, do qual já passou por tudo na vida por ter mais idade o faz crer estar acima, ter ultrapassado os limites humanos. Por sinal, acho interessante que seja imposto que as pessoas mais velhas são mais sábias. Onde é que está sabedoria naqueles que não souberam contornar as cagadas que cometeram na vida com um mínimo de razoabilidade para hoje poder ensinar? Como podem, agora, sentirem-se experientes, se não aprenderam absolutamente nada, a não ser a desistir?
Saí. Eram 19 horas, peguei meu carro e subi a Consolação, enquanto chovia e os reflexos me incomodavam. O asfalto parecia um espelho sujo, onde os letreiros eram refletidos de forma embaçada suas mensagens suburbanas. Mas era um dia de merda, e na esquina com a Paulista o carro parece ter recebido a ordem do além. Parou, sem gritar, num silêncio mórbido e súbito, e ali ficou. Não me irritei, já tinha tido um dia cheio, e não tinha mais vontade de me irritar, acendi um cigarro, recostei sobre o capô, e fumei lentamente aquele cigarro, pensando no que fazer da vida, e no pior, no que fazer do carro. Liguei para o serviço de guincho, onde uma pessoa com uma calma aparente, que de fato era mais um cansaço do que calma, me atendeu e depois de uma burocracia do cacete, disse que o guincho chegaria em 1h no máximo. E não chegou, agora já eram 21h e nada do filho da puta.
Tanto faz, larguei o carro lá mesmo, não poderia sair comigo, e nem com outra pessoa. Andei. Andei, andei, e já não sabia mais o que queria. A fome que antes tivera agora amortecia meu estômago e calava a alma. Talvez pudesse ver um filme, talvez pudesse pegar um ônibus. Não fiz coisa alguma. Entrei num bar sujo, com um cidadão de rosto marcado pelo sofrimento daqueles que um dia fugiram das terras trincadas do nordeste, e ali comprei uma bebida. Sentei e bebi, fumei, bebi, fumei, e fumei.
Agora já era possível observar que a cidade tomava outra forma: obscura como a noite de São Paulo não há. Prostitutas com sua sedução comercial caminhavam em direção do centro, enquanto garotos tentavam assaltar os mais atrasados para ir para casa, ou melhor, os mais escravizados, quem sabe. A chuva cessara, mas ainda restava o vento rasgando a consciência.
Saí dali e caminhei sem um destino exato. Não tinha destino, e aquela situação demonstrava claramente como seguia a minha vida, que outrora foi calma, simples, e agora é esse caos. E eu gosto.
Avistei uma pequena fila numa porta qualquer, e talvez a curiosidade tenha me puxado para lá. Ou o destino, não posso afirmar, não sei no que acredito, ou se quero acreditar. Entrando, tocava Sex Pistols, me lembro bem, estava lotado, e as pessoas pareciam felizes, loucas, fora deste mundo, e de outros. Fui até o bar, e foi lá que a vi. Pedia cerveja, eu vodka, precisava daquilo. Nossos olhares se atravessaram, e com certa vergonha se calaram, desviados para o chão, e novamente nos olhamos: oi, ela disse, e eu respondi, de alguma forma ríspida, estava já cheio daquilo tudo. Conversamos, e pouco a pouco descobri a sua identidade, a sua formação, e todas as bobagens que não me importavam naquele momento, pois o que me importava era ela. Lia Bukowski, gostava de rock, fumava um cigarro entre uma história ou outra de como ela enlouquecia os caras antes de encher-se deles. Ela dizia que a culpa era deles, que nunca a fizeram querer somente eles, simplesmente nunca foram para ela, o que ela fora para eles. Fingi compreender.
Em algum tempo estávamos a nos beijar intensamente, já muito bêbados para importar-nos com os outros. Minha mão corria por dentro de sua camisa xadrez, descendo pelas costas. Ela se deixava levar, pela musica, pelo momento, extasiada com tudo ou com nada, enquanto eu beijava-lhe o pescoço, e trazia contra mim.
Saímos do local, andávamos com dificuldade, mas aquilo era o suficiente para nos levar ao apartamento dela, não longe dali, onde transamos como adolescentes sedentos. As horas já não existiam mais, e ela parecia estar em outro planeta, e eu a acompanhava nesse mundo ilusório cheio de cores e letras, sons e solos.
Acordei no outro dia muito tarde, ela ainda dormia, num sono tão profundo quanto a morte. Levantei, peguei um papel e escrevi “me espera nesse teu mundo, que nele eu me refaço e nele permaneço”, e desci pelas escadas sujas que me levavam até a rua. Lembrei do carro, e de outras poucas coisas do dia anterior, mas naquele momento, a busca por meu veículo era o que deveria ser feito, até descobrir que ele fora guinchado, merda.
Tanto faz, caminhei. Chegando em casa, tomei um banho e comi a pizza velha que estava na geladeira, era tudo o que tinha, e eu estava morto.
Mais tarde, no noticiário, a notícia que me fez sumir: uma garota morreu atropelada enquanto cruzava a avenida Paulista. E era ela. Ela estava ali, morta, deitada no asfalto, atropelada por um motoboy que desrespeita a vida, e jogou a dela no lixo. E nesse momento, eu também estou morto. Estou morto estando vivo; perdi o que me colocou de volta a vida antes mesmo de viver. Ela morreu, mas levou consigo minha alma, só o corpo ficou.
Não sei, me sinto triste, vazia – ela dizia isso pois acabara de encerrar um relacionamento conturbado – talvez eu não tenha nascido para isso, talvez eu seja uma alma solitária perdida num mundo de desilusões, esbravejava, com a melancolia de quem acredita que o fim é uma falha, uma falta de competência. Ele permanecia ali, amigo de longa data, cabelos escuros, olhar vazio e calmo, como se estivesse perdido no meio do mar, como se tentasse enxergar, sem sucesso, alguma terra, algo além. A escutava com todo amor, mas sua atenção não estava na simples fala da amiga, mas na situação como um todo. Ela ali, descalça, cabelo mal preso, uma camiseta velha dos Rolling Stones, uma taça de vinho na mão, enquanto as lágrimas lhe corriam o rosto desapontado, ao contar de suas frustrações. Permanecia ali, calado, respiração profunda e lenta, tímido, em pleno silêncio de corpo, e inquietude de alma, sentado numa poltrona no canto da sala amarela com alguns quadros mal dispostos, alguns discos no chão, a vitrola desligada dava a cena um teor ainda mais melancólico, se não fosse por sua vontade de rir, de gritar, de brigar, de abraçar, de amar.
Amor. Era nessa palavra que tudo centrava, não só a situação da amiga, mas a dele, a do mundo e todo seu caos organizado por meio de história, cultura, costume, inverdades. Era o amor em sua forma vil, onde a carne falava pelo sentimento, onde o sentimento machucava mais do que confortava, onde a amiga chorava um amor que não era amor. E ele refletia. Como pode transformar-se nisso o amor? Como pode ser o amor entendido como essa barbaridade? Ele se questionava profundamente e isso o desesperava, e, naquele momento, já não mais ouvia uma palavra da jovem loira a sua frente, não por maldade, mas pelo simples fato de querer consertar aquilo, ou de pelo menos entender, queria dar uma palavra de conforto mas mal compreendia a situação, e nisso se calava, e se perdia, e nunca achando-se em seus pensamentos e reflexões, perdia-se ainda mais.
Você está me ouvindo? Sim, estou. Está quieto, não quer beber algo? Não, obrigado. Há algo que te incomoda? Foi essa a pergunta que agiu nele como um açoite violento de um capitão-do-mato num escravo fugitivo, sentiu a punhalada de tudo aquilo que pensara minutos antes, e que agora poderiam vir à tona, todos os pensamentos: poderia falar-lhe que o amor não era aquilo que unia duas pessoas ao sexo, não era a posse de um sobre o outro, não era aquilo que causa dor e sofrimento. Queria dizer que o amor está acima da compreensão, é sublime em sua essência e que não deve ser entendido como esse objeto humanizado. Que o amor não constitui casais, mas constitui união de espíritos, e que o amor está além da divisão masculino-feminino; masculino-masculino; feminino-feminino. Queria dizer, queria. Estou bem, obrigado.
Levantou-se então, com a calma que lhe era costumeira – a vida toda fora um rapaz pacato, de poucas palavras e olhar constante ao mundo à sua volta, gostava mais de ver do que de falar, sentia entender o mundo, mesmo sabendo que nada entendia, ou talvez não tivesse que ser compreendido – e caminhou pela sala em direção a uma grande janela que apontava para o centro de São Paulo, naquele dia cinza como foram os dias anteriores, naquele inverno de julho, que rachava lábios, que trincava faces. Observou por alguns segundos e caminhou em direção a ela, a amiga que naquele momento passou a olhá-lo diretamente nos olhos, talvez perguntando-se tantas coisas sobre o que ele faria a seguir, ou simplesmente esperando a salvação. Salvação de quê? Nem ela sabia, mas queria ser salva. Segurou suas mãos, e levantou-a do chão de madeira onde se encontava, colocando-a em pé em sua frente, para olhá-la nos olhos, para vê-la, para quem sabe dizer algo, para quem sabe ela dissesse algo, para enfim, parar. As mãos dela estavam quentes, seu rosto vermelho, a maquiagem levemente borrada, onde ele passou com cautela os dedos retirando as manchas e as lágrimas. Era o início de algo, ela sentia, ele sentia, eles sentiam. A renovação, a salvação, o começo, o fim, a construção.
Em silêncio, os dois se olhavam calados, não havia palavra a ser proferida naquele momento, não havia nada que pudesse dizer mais do que aqueles dois pares de olhos brilhantes e estáticos, fixos um no outro, enquanto suas respirações agora estavam ajustadas perfeitamente em sintonia ímpar, enquanto seus sangues corriam vagarosamente, enquanto pensavam em tudo, e em nada. Foi ele que recobrou a consciência primeiro, como se a partir dali tivesse que comandar todo o resto, general de um exército de acontecimentos, ele deveria guiar a ele mesmo, e a ela. Abraçou-a. Com a cabeça em seu ombro, ela passou deixar-se sentir. Sentir-se viva, sentir que toda sua lamentação era vã, que tudo aquilo era minúsculo perto da existência. Sentia, contudo, que estava bem, uma alegria súbita lhe tomara o corpo e a alma. O passado naquele momento tornou-se distante, um aprendizado que agora já não a faria mais chorar. Ele, alisava os cabelos da então amiga, num gesto que para ele era muito, mas que sabia ter algum efeito, sabia que aquilo a acalmava, que aquele simples gesto a fazia sentir-se protegida. Ela estava salva.
Afastaram poucos centímetros, o suficiente para que pudessem olhar-se sem que seus braços tivessem que deixar de envolvê-los. Olharam-se por alguns instantes, e ele, com sua voz trêmula, em tom baixo, disse: Eu te amo. Eu te amo como amo todas as coisas do mundo. Eu te amo como amo cada manhã. Eu te amo como amo a noite, a chuva. Eu te amo como amo cada partícula que compõe esse planeta e essas pessoas. Eu te amo como amo a humanidade, como amo a vida e todas as suas situações, como amo as palavras e a música, como amo o vento e o mar. Eu te amo, como amo a mim mesmo. Como amo o amor, eu te amo. Essas palavras não causaram nenhum movimento, não falaram depois disso, não se soltaram. Porém, era em seu espírito que a revolução ocorria. De repente seu mundo não era mais o mesmo, e tudo aquilo que era para ela importante lhe pareceu sem valor, não que tivessem perdido o valor, mas a importância para com as coisas pequenas agora já não existiam mais. Ela percebeu a grandeza do amor de uma forma que nunca antes pudera perceber. Percebera que suas lamentações eram infantis e imaturas, mas não se envergonhou, pois sabia que agora crescia, sentia-se maior e diferente, e espantava-se que aquelas palavras causassem nela tamanho caos.
Permaneciam ali, entre olhares e respirações, quando, num movimento de coordenação exemplar, como se por um segundo uma única pessoa estivesse ali, como se fossem duas pessoas únidas no mesmo corpo, beijaram-se. Beijaram-se por um longo tempo, com movimentos carinhosos e gentis, com a leveza de pássaros em vôo. Beijaram-se sem culpa, sem limites, sem tristezas ou mágoas, sem preocupações ou qualquer questão externa ao mundo deles. Aquele beijo sinalizava a libertação, a união, não de corpos, mas de almas. Estavam unidos. Unidos, finalmente, pelo amor.
Domingo. Era domingo. Um domingo de sol e chuva, calor e frio. Um domingo que começara normal, insuspeitado, simples, como todos os domingos de todas as semanas de todos os meses daquele ano. Naquele domingo, acordei cedo e desperto para aquilo que viria a se seguir depois. Era um dia anormal sem ser, começara como qualquer outro e naturalmente deveria acabar como tal. Porém, acordei cedo. Caminhei pela casa vazia, com uma caneca de chá na mão observando cantos e espaços que passam sem serem notados na semana intranquila, com toda a bagunça e desespero contidos em seus objetos inanimados.
Havia sol naquele momento, e com movimentos lentos, não pouco cansados, coloquei-me a observar um guarda-roupas repleto de lembranças em formas de roupas, perfumes, presentes. Sem gastar muito tempo, hostilizando sem saber aquele dia que já estava acontecendo, ainda sem importância, retirei um jeans qualquer de dentro daquele amontoado de madeira, e uma camsa cinza pouco amassada pela violência das outras peças, e as vesti com uma tranqüilidade ansiosa, para ir para a rua. A ansiedade vinha em ondas de euforia, sem ter motivo, como se a alma visse mais que o corpo e já conhecesse o desfecho daquele dia. Domingo.
Alguns telefonemas, conversas rápidas e frias, e saí para os acontecimentos, os fatos. Para tudo aquilo que me faria pensar por dias, semanas, e agora meses, no resultado que não resulta. Dei a partida no carro, no rádio a minha música, nossa música talvez. E saí. Os primeiros pingos anunciavam que o céu se faria cinza, e depois azul, e depois cinza, e depois azul, terminando em preto. São Paulo parecia diferente, talvez pelos olhos deste que vos conta a sua história, que provavelmente já agora imaginavam um belo fim, talvez porque fosse domingo e estivesse sol entre chuvas, talvez. A verdade é que nós nos conhecemos dias antes, ela e sua velocidade, sua dinâmica teatral, seus impulsos medos e vontades, e eu. Mas não a sua história – e ela ama história, mas não essa, e sim aquela História – não tudo o que a fez chegar ao que era, não o que a fazia ela.
Foi numa rua que começava e terminada numa curva, diante de uma plateia de olhos desconhecidos e atentos, outros nem tanto, que nos encontramos. De longe ela veio caminhando, como se flutuasse, como uma bailaria de gestos delicados e belos no seu balet perfeito, e seus olhos grandes e brilhantes que fariam seus súditos todos aqueles homens e mulheres que a viram chegar. Seu sorriso, incógnito, não dava a certeza do que se passava por entre seus pensamentos e devaneios, porém, era algo tão belo quanto as coisas mais belas que foram ditas belas. Então, já próximos, sem muitas palavras, nos abraçamos envolvendo o mundo, o nosso mundo que criamos para aquele dia, esquecendo de toda a platéia, todo o roteiro. O palco era nosso, e naquele momento não dividimos com outras pessoas. Éramos atores e diretores na nossa peça sem fim.
Dali caminhamos, e conversamos. Foi uma tarde de conversas sobre assuntos quaisquer que viessem à mente, não profundos, não exigiam de nós mesmos reflexões profundas acerca do nada, simplesmente conversamos. Será que chove? Talvez. Você quer que chova? Quero. É o primeiro show. Não, é o último show, como naquele filme. Enquanto falávamos eu a observava atentamente em seus movimentos. Ah, eram tão belos, eu assistia como o nascimento de um novo dia. Enquanto ela falava eu podia olhar seus lábios se moverem, o jeito como ela escondia as mãos, que eram a criação da música para a própria música, que acariciava as cordas de seu violão enquanto se colocava sozinha em momentos melancólicos de uma solidão provocada. Ela era toda bela, toda arte, e eu olhava aquilo com atenção para não perder um movimento, um ato.
Sentados na grama, com o sol a nos ilumar perfeitamente, não deixando nenhum ponto sem luz em nós, senão nossas próprias sombras, paramos de conversar. O silêncio se fez entre nós como numa breve reflexão: o que ela pensava? não sei, não tentei imaginar, não quis prever. Eu pensava no que se seguiria dali, pois já estava completamente absorvido por tudo aquilo e agora já não pensava mais, apenas me deixava levar por aquela que me fez parar os pensamentos; e ela, talvez premeditadamente, talvez como mais um de seus movimentos leves e precisos, recostou-se em meu ombro, colocando-se a olhar para tudo ao seu redor, e talvez a esperar. Levantei seu rosto e olhei em seus olhos, observei-os por poucos segundos, descendo até o nariz, e depois a boca e, talvez num primeiro momento em que fui suave mas bravo, encostei meus lábios nos dela e a beijei com certa calma, me desligando do mundo e de mim mesmo, e estando preso apenas a ela. Eu já não via, não ouvia, nada, meus sentidos estavam ali apenas para ela, por ela, e para aquele beijo, que terminou com um sorriso dela, não sem certa timidez que tornou esse final certamente mais bonito.
Seguimos – e agora falo no plural, e não mais no singular, singular como era, e como sou agora – assim durante toda aquela tarde daquele domingo, entre abraços, beijos, chuvas e músicas. Eu encontrei-a quando não quis mais procurar o meu amor, dizia a banda para mim, para ela, para que entre lágrimas e alegrias sorríssemos para o amor.
- Tenho que ir, me desculpa?
- Que pena, mas não se desculpe, nos veremos em breve
- Sim! Essa semana, e a próxima, tavez a outra, talvez sempre
- Você é linda!
- Tenho que ir
- Certo, não vou te prender
(Apenas gostaria que soubesse que eu pensarei em você o resto da noite, e o próximo dia, e que sentirei saudades enquanto você estará na sua casa tocando seu violão, quem sabe a nossa música, quem sabe a música de outro alguém, mas não importa nesse momento, pois o que digo, o que quero dizer, é que pensarei em você a cada dia que se seguirá nesse mês e no próximo, e que me doerá estar longe de você e sua atuação surreal. Que saiba que cada verso escrito será em seu nome e em memória desses momentos que me acompanharão a cada passo, a cada ato, a cada visão, e que então em momentos de desespero eu me comunicarei com você de uma forma totalmente absurda e inconsequente, sem pensar nas suas reações e seus pensamentos, e em quanto isso poderia afetar a você e a nós dois. que você soubesse que desde o primeiro até este último instante eu me senti menos sozinho e mais com alguém, que como diria a música você foi o primeiro rosto que vi, e que talvez tivessemos sido grandes, juntos, talvez invejáveis, talvez dignos de retratos, e quadros, e filmes, e poesias. Apenas gostaria que você soubesse que você não saberá de nada disso, pois logo me dará as costas sem explicações, sem conversas, sem brigas ou problemas, mas me abandonará com a covardia de quem não quer sentir na pele aquilo que imaginou, pois, antes de viver resolveu prever, e logo assim não viver. Você não quis viver.)
- Tchau.
- Tchau, até o final de semana. Me ligue
- Certo, agora preciso ir… Até.
o tempo está passando :~
Há algum tempo era uma criança, louca, gostava de bandas as quais apesar de não ouvi hoje em dia, ainda diz gostar. Falava com a sabedoria que lhe era precoce, mas com as confusões de quem ainda estava crescendo. Talvez não soubesse o que era o amor, talvez não soubesse o que era a paixão, mas sabia viver e ser alegre, ao modo que lhe era conveniente, era feliz.
As preocupações eram outras, os relacionamentos eram mais fáceis, os problemas, que pareciam ter uma dimensão enorme, são vistos hoje como bobeiras perto do que acontece atualmente. Naquele tempo amizades foram criadas, laços indestrutíveis selados, e um futuro promissor talvez iniciado ali deveria acontecer.
O tempo vai passando, ano atrás de ano, e as coisas tomam rumos diferentes, as certezas de quando se era nova agora passam a ser dúvidas, os gostos vão mudando, as amizades criadas naquela época não são mais as mesmas, algumas se foram por questões diversas, enquanto outras surgiram para suprir as lacunas deixadas. O relógio agora parece correr mais, os erros são catástrofes e os acertos são glórias, e nesse momento, ser feliz e viver é a grande meta, sem que o que as pessoas pensam importe, ela quer é viver.
Talvez com um pingo de egoísmo, ela acabe brincando com quem está à sua volta, cause mágoas que ela nem imaginaria no passado ser capaz de criar. Talvez hoje ela ainda não diferencie amor de paixão, ou talvez o faça, mas não queira no momento o amor, somente as paixões. No momento ela está feliz provavelmente sem ter certeza, mas com medo de que seus atos agora reflitam negativamente no seu futuro. Porém, ela é livre, ela sabe o que faz, ela é autônoma, presa somente a sua consciência, ela sabe que sempre terá com quem contar, e que num momento de dificuldade, os pilares que foram criados lá atrás, quando ela ainda era uma criança, vão sustentá-la quando ela precisar. Ela sabe que os grandes amores nunca acabam, e que almas gêmas nunca morrem. Ela sabe, e sempre soube, que o destino dela é ser feliz, como foi ontem, é hoje e será mais ainda amanhã.
Ela completa mais um ano hoje, e eu sinceramente dou parabéns, pelo que ela foi e pelo que pode ser. Acredito que há muito por vir ainda, tantos acontecimentos que possam fortalecer o caráter genial que ela tem, talvez em alguns momentos adormecido por questões externas, mas ela sabe que apesar de tudo, qualquer mudança que ela faça nela mesma, o que seja que ela queira ser, a essência será sempre a mesma, e ela sempre será ela, a amada de todo o sempre.
Parabéns, meu amor, por mais um ano de vida.